Sempre
quis ser vista, notada nos detalhes, observada nas pequenezas, milimetricamente
analisada por quem fosse capaz de me admirar. Queria olhos que me vissem e me
desejassem, mas não o óbvio, as sutilezas. Estas insignificâncias capazes de
passar despercebidas por quem não está atento. Queria a atenção de quem fosse
capaz de ver, compreender e expor. Alguém que fizesse poesia sobre minhas
marcas, que descrevesse um gemido único, percebesse uma esguelha no olhar e seu
significado. Ser apreciada pelo que me é especial. Ou tornar especial para o
outro coisas tão minhas.
Hoje
vivi isso. Fui descrita em estado cru. Como só um grande amor seria capaz. Eu pensava.
Mas não houve amor. Nenhum. Nem em pequenas porções. Nem como sobra. Me admirei
da admiração. Me realizei no meu desejo. Me frustrei na minha fantasia. Não
diminui minha vaidade, ter sido tão ricamente enxergada. Pelo contrário. Mas no
fundo o que fica? Admiração momentânea, que virou sonho. Não fez com que ninguém
me amasse ou me quisesse mais. Não curou as feridas que os olhos, então, não
revelavam. Então qual o sentido da espera? Se nem nela somos capazes da compreensão.
Os
olhos me viram e não me tocaram. Se mantiveram distantes em observação. Os
olhos não me viram. As mãos se tocaram. As bocas mentiram. Os caminhos não se
cruzaram.

