quarta-feira, 20 de maio de 2015

Olhos trocados


Sempre quis ser vista, notada nos detalhes, observada nas pequenezas, milimetricamente analisada por quem fosse capaz de me admirar. Queria olhos que me vissem e me desejassem, mas não o óbvio, as sutilezas. Estas insignificâncias capazes de passar despercebidas por quem não está atento. Queria a atenção de quem fosse capaz de ver, compreender e expor. Alguém que fizesse poesia sobre minhas marcas, que descrevesse um gemido único, percebesse uma esguelha no olhar e seu significado. Ser apreciada pelo que me é especial. Ou tornar especial para o outro coisas tão minhas.

Hoje vivi isso. Fui descrita em estado cru. Como só um grande amor seria capaz. Eu pensava. Mas não houve amor. Nenhum. Nem em pequenas porções. Nem como sobra. Me admirei da admiração. Me realizei no meu desejo. Me frustrei na minha fantasia. Não diminui minha vaidade, ter sido tão ricamente enxergada. Pelo contrário. Mas no fundo o que fica? Admiração momentânea, que virou sonho. Não fez com que ninguém me amasse ou me quisesse mais. Não curou as feridas que os olhos, então, não revelavam. Então qual o sentido da espera? Se nem nela somos capazes da compreensão.


Os olhos me viram e não me tocaram. Se mantiveram distantes em observação. Os olhos não me viram. As mãos se tocaram. As bocas mentiram. Os caminhos não se cruzaram.

sábado, 16 de maio de 2015

A.b.s.o.l.u.t.o


Me lembro perfeitamente de como você me olhava. Um olhar doce, admirado, que mal cabe em si. Não acredito que tenha sido olhada com tamanha intensidade por mais ninguém, nem mesmo por você. O amor beirava o palpável, com se entre o seu olhar e o meu houvesse uma corrente mágica do mais puro encantamento. Você me olhava quieto, em silêncio, com a respiração baixa e cadente. O tempo parecia em suspensão. O ar, parado, como que para não atrapalhar. Aquilo era magia. Única. Ímpar. Plena. Não sei por quanto tempo você me olhou, mas quando me dei conta, ele pareceu infinito. Não mais pertencíamos a este mundo, porque não havia mundo além de nós. Nada mais fazia sentido ou tinha importância. Ali tínhamos tudo. E aquilo foi o absoluto.