sábado, 28 de novembro de 2015

"Cadê a escritora?"



Numa fase de muita tristeza, me apeguei a todo tipo de “ajuda” que achei válida. Faltaram as drogas pesadas, e talvez terapia,  mas precisava de algo imediato, precisava de respostas, caminhos, nada de reflexões para descobrir o sentido ou a origem das coisas. Assim parti para astros, cartas e conchas, leituras que me diriam o que fazer.
Agora não consigo mais acessar aquela dor, o que é muito estranho, mas recordo que ela foi imensa, me punia e era onipresente, como aprendemos que Deus é, não me abandonava em momento algum, se acordasse no meio da madrugada, ainda sonolenta, a primeira sensação era o sofrimento. Carregava a tristeza nas entranhas, nos cantos da alma, nas partes desconhecidas de mim. Como aqueles músculos que só sabemos que existem quando doem.
Numa das minhas buscas, me deparei com os búzios e os orixás e um senhor negro, que lia aquilo e consultava verbalmente seres que eu não conseguia ver.  Deste encontro escrevi um texto que seria o primeiro capítulo de um livro. Ele foi escrito rapidamente, com certeza nas palavras e na mensagem, era preciso na minha sensação e no meu momento. Escrevi no aeroporto, esperando um voo, num caderno pequeno de anotações, que tinha na capa o desenho de uma arte contemporânea, começava com a primeira frase que este senhor negro, figura tão marcante, me fez assim que jogou os búzios: “Cadê a escritora?”. Assim, na minha cara, perguntando sem nenhuma cerimônia, sem se sentir desconfortável em me colocar contra a parede, questionando o que não fiz, mas que eu já deveria saber.
Aquele primeiro capítulo foi perdido, junto com o caderno de notas. Me faz falta. É como se a indicação inicial do caminho tivesse se perdido. Mas a pergunta continua comigo. Lembrei dela ontem. Com força. Ela me veio numa noite em que me senti sozinha. A busca não começou na tristeza, ela sempre existiu, mas a dor intensifica as ações e as certezas. E talvez por isso o questionamento tenha voltado com tanta intensidade. Ainda não permiti que a escritora tome conta, mas sei que aos poucos ela vem se colocando no comando. Assumindo seu lugar. É difícil aceitá-la, porque para que ela comande, preciso abandonar a criança. E a criança é a minha fonte de esperança. Na verdade, se me lembro bem, a ideia não é abandonar a criança, mas guiá-la, porque quem sabe o que quer é ela, a escritora, que é senhora, mais sábia, mas sem ilusões. Não acredita num mundo cor de rosa, não espera o impossível, não mente pra si mesma, nem que isso alivie a dor.
Hoje sinto que precisei ir longe fisicamente para me libertar de uma carcaça que me protegia. A vida foi fácil comigo. Sempre. Ainda que tenha sentido dores, não tive que lutar, não disputei nada, não vivi um mundo sórdido. Agradeço. De coração, me sinto abençoada. Mas, por outro lado, acho que me fechei nessa concha de proteção por tempo demais, me resguardando, mas também me isolando, vivendo confortavelmente no que me era seguro. Não me sinto mais segura. Busco cada vez mais o que descobri, recentemente, se chamar solitude, mas busco entender também que com a escritora vem um mundo ainda mais real. E na realidade, o mundo não é bom. As pessoas não são bonitas. A vida não é fácil. Espero que minha escritora seja também mais serena, porque preciso dela para que essa minha existência seja válida. Espero também a nova carcaça, porque todo mundo precisa de escudos.

E espero ainda um novo capítulo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Uma sexta qualquer...


Tão bom quando dá vontade de escrever.
Tão bom quando a vontade de escrever não vem da dor. Porque, sim, escrever alivia. Então que alegria reconhecer quando a sensação interna é tão boa que a vontade de “alívio” é uma forma de expansão.
Colocar para fora é se expor. E por muitas vezes é sentir um pouco outra vez, é recordar, é deixar partir. E da tristeza pode se fazer o belo.
Mas escrever é também transformar em palavras a sensação da alma. O contentamento do estar.
A vida é repleta de momentos perfeitos. E não é, necessariamente, a perfeição o que determina o sublime. É a pertencimento que o acompanha. A realização plena do instante.
Entendo agora o “estar presente”. Se o vivi várias vezes, talvez só hoje o tenha identificado assim. Como quando conhecemos um lugar aos poucos e, de repente, juntamos pedaços, espaços que já eram conhecidos, mas que não formavam um todo.
Essa constatação é hoje presença. Não esperança, desejo, expectativa.
Mas existência.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

what if




O que é a vida
Se não
Os sonhos que se cultiva
Se não aquela esperança gasta
Em que ninguém mais acredita
O sonho do grande amor
O desejo de merecimento
A expectativa pela conquista

O que é a vida
Se não a desilusão que se desfaz
O medo que se extingue
A doença da qual se livra

O que seria  a vida
Se não fosse a retomada constante
A aposta num caminho incerto
A ilusão do prazer de hoje

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Olhos trocados


Sempre quis ser vista, notada nos detalhes, observada nas pequenezas, milimetricamente analisada por quem fosse capaz de me admirar. Queria olhos que me vissem e me desejassem, mas não o óbvio, as sutilezas. Estas insignificâncias capazes de passar despercebidas por quem não está atento. Queria a atenção de quem fosse capaz de ver, compreender e expor. Alguém que fizesse poesia sobre minhas marcas, que descrevesse um gemido único, percebesse uma esguelha no olhar e seu significado. Ser apreciada pelo que me é especial. Ou tornar especial para o outro coisas tão minhas.

Hoje vivi isso. Fui descrita em estado cru. Como só um grande amor seria capaz. Eu pensava. Mas não houve amor. Nenhum. Nem em pequenas porções. Nem como sobra. Me admirei da admiração. Me realizei no meu desejo. Me frustrei na minha fantasia. Não diminui minha vaidade, ter sido tão ricamente enxergada. Pelo contrário. Mas no fundo o que fica? Admiração momentânea, que virou sonho. Não fez com que ninguém me amasse ou me quisesse mais. Não curou as feridas que os olhos, então, não revelavam. Então qual o sentido da espera? Se nem nela somos capazes da compreensão.


Os olhos me viram e não me tocaram. Se mantiveram distantes em observação. Os olhos não me viram. As mãos se tocaram. As bocas mentiram. Os caminhos não se cruzaram.