Numa fase de muita tristeza, me apeguei a todo tipo de
“ajuda” que achei válida. Faltaram as drogas pesadas, e talvez terapia, mas precisava de algo imediato, precisava de
respostas, caminhos, nada de reflexões para descobrir o sentido ou a origem das
coisas. Assim parti para astros, cartas e conchas, leituras que me diriam o que
fazer.
Agora não consigo mais acessar
aquela dor, o que é muito estranho, mas recordo que ela foi imensa, me punia e
era onipresente, como aprendemos que Deus é, não me abandonava em momento
algum, se acordasse no meio da madrugada, ainda sonolenta, a primeira sensação
era o sofrimento. Carregava a tristeza nas entranhas, nos cantos da alma, nas
partes desconhecidas de mim. Como aqueles músculos que só sabemos que existem
quando doem.
Numa das minhas buscas, me
deparei com os búzios e os orixás e um senhor negro, que lia aquilo e
consultava verbalmente seres que eu não conseguia ver. Deste encontro escrevi um texto que seria o
primeiro capítulo de um livro. Ele foi escrito rapidamente, com certeza nas
palavras e na mensagem, era preciso na minha sensação e no meu momento. Escrevi
no aeroporto, esperando um voo, num caderno pequeno de anotações, que tinha na
capa o desenho de uma arte contemporânea, começava com a primeira frase que
este senhor negro, figura tão marcante, me fez assim que jogou os búzios: “Cadê
a escritora?”. Assim, na minha cara, perguntando sem nenhuma cerimônia, sem se
sentir desconfortável em me colocar contra a parede, questionando o que não
fiz, mas que eu já deveria saber.
Aquele primeiro capítulo foi
perdido, junto com o caderno de notas. Me faz falta. É como se a indicação
inicial do caminho tivesse se perdido. Mas a pergunta continua comigo. Lembrei
dela ontem. Com força. Ela me veio numa noite em que me senti sozinha. A busca
não começou na tristeza, ela sempre existiu, mas a dor intensifica as ações e
as certezas. E talvez por isso o questionamento tenha voltado com tanta
intensidade. Ainda não permiti que a escritora tome conta, mas sei que aos
poucos ela vem se colocando no comando. Assumindo seu lugar. É difícil
aceitá-la, porque para que ela comande, preciso abandonar a criança. E a
criança é a minha fonte de esperança. Na verdade, se me lembro bem, a ideia não
é abandonar a criança, mas guiá-la, porque quem sabe o que quer é ela, a
escritora, que é senhora, mais sábia, mas sem ilusões. Não acredita num mundo
cor de rosa, não espera o impossível, não mente pra si mesma, nem que isso
alivie a dor.
Hoje sinto que precisei ir longe
fisicamente para me libertar de uma carcaça que me protegia. A vida foi fácil
comigo. Sempre. Ainda que tenha sentido dores, não tive que lutar, não disputei
nada, não vivi um mundo sórdido. Agradeço. De coração, me sinto abençoada. Mas,
por outro lado, acho que me fechei nessa concha de proteção por tempo demais,
me resguardando, mas também me isolando, vivendo confortavelmente no que me era
seguro. Não me sinto mais segura. Busco cada vez mais o que descobri,
recentemente, se chamar solitude, mas busco entender também que com a escritora
vem um mundo ainda mais real. E na realidade, o mundo não é bom. As pessoas não
são bonitas. A vida não é fácil. Espero que minha escritora seja também mais
serena, porque preciso dela para que essa minha existência seja válida. Espero
também a nova carcaça, porque todo mundo precisa de escudos.
E espero ainda um novo capítulo.
