sexta-feira, 1 de julho de 2016


Quando achei que era tudo que eu queria ser, fui nada do que você queria que eu fosse...

domingo, 3 de janeiro de 2016

dois mil e ano novo

Mais uma página em branco.
O branco que precede o texto escrito, o espaço aberto para o início de um novo ciclo.
O Reveillon é de longe uma das minha datas preferidas. Acho que mudamos nossa energia, nos enchemos de esperança e, ainda que seja ingênuo imaginar que a simples passagem de um ano para outro ano possa mudar concretamente alguma coisa, não deixa de ser uma marca de renovação e crença.
Acreditar na transformação é poderoso, manter as intenções para uma transformação é um desafio, ser honesto com a transformação em curso é um aprendizado. Para mim a maior dificuldade talvez seja essa última parte. Essa espécie de “honestidade”  em identificar – e aceitar - o que muda do lado de fora – e do qual nem sempre temos controle – e o que muda do lado de dentro – do qual também nem sempre temos controle (embora esta seja uma questão ainda em aberto para mim).
Enquanto algumas mudanças são provocadas e podem ser conduzidas, outras são livres e independentes, como a sabedoria do corpo, quando aprendemos a prestar atenção. Reconhecer a necessidade de mudança é difícil, assustador até, já que nos cabe caminhar para fora da nossa zona de conforto. Identificar as mudanças que simplesmente aconteceram também não é fácil, é admitir o que não faz mais sentido e parecia essencial ou aceitar que a prioridade agora é uma coisa que você talvez não goste tanto ou que nunca imaginou que fosse fazer parte da sua vida. Mas os ciclos funcionam assim, à base de mudanças. Das mais imperceptíveis às que incluem seu CEP oficial. E o meu ciclo que se fechou no dia 31, embora ainda haja tanto em aberto, foi destes em que se derruba tudo e se prepara o terreno para nova construção. Sinto no meu corpo a extensão da mudança. Sinto na minha língua e no idioma que eu uso. Sinto nos laços que se solidificam ou se desfazem.
Por gostar tanto da data, sempre passo o período que antecede o Reveillon fazendo minhas próprias retrospectivas. O que foi o ano, o que mudou, o que foi diferente da expectativa, o que eu previ certo. Gosto destas análises internas. Este ano recuperei textos e anotações. Num ano de tantas mudanças, passei dias dando voltas em temas diferentes. Anos tão intensos são também complexos e difíceis de serem analisados tão de perto. Assim como o ano de 2001, quando me mudei para São Paulo, o ano de 2015, quanto tento tirar uma foto dele, me parece um ano em suspensão. Algo entre o “tanta coisa aconteceu” e o “nada aconteceu de verdade”. Uma contradição complicada de explicar e, no entanto, uma constatação impressa na minha percepção.
Foi um ano bom. Sem dúvida. Ainda que eu tenha a impressão de que o mundo entrou em colapso. Mas foi um ano de decisões drásticas que com certeza serão determinantes no meu caminho adiante. Qualquer escolha passa por isso, mas algumas são mais intensas que outras.
Tenho a sensação de que em 2015 deixei de ser criança. O que é ótimo e talvez esteja meio atrasado na minha biografia, mas, no fundo, espero ser capaz de resgatar um pouco dela adiante, porque neste deixar de ser criança incluo o abandono de uma espécie de filtro que deixa o mundo e as pessoas melhores. Como quando a gente deixa de acreditar em Papai Noel...
2015 foi um período de crescimentos valiosos: a conclusão com sucesso de uma pós; a capacidade de encerrar internamente um relacionamento amoroso; a criação de uma empresa com parcerias reais; a realização do sonho antigo de morar em outro país. 2015 foi um período de ausências grandes: não pude abraçar meu pai quando ele fez 70 anos; fui incapaz de me envolver realmente com alguém; dei adeus a um mundo mais colorido.
O Reveillon nunca foi tão frio (literal e metaforicamente falando) quanto este ano. Me rendi ao hábito holandês de não saber até o último minuto o que fazer na virada, quando normalmente em agosto já teria isso relativamente planejado, e tirando uma única (nova) amiga com quem eu me colei para não passar a data sozinha, praticamente não falei com ninguém no dia 31. Os desejos de um novo ano ficaram todos para o novo ano.
Os pedidos para 2016 são poucos, mas não são modestos, porque dependem quase todos da minha dedicação e comprometimento: me conhecer melhor (praticar, praticar, praticar meditação), criar novos hábitos, desenvolver disciplina, compreender o que realmente quero e o que vim fazer por estas bandas (e quando digo bandas, não me refiro ao antigo continente).
E como gosto de listas, no meio do processo de autorreflexão deste final/começo de anos, me deparei com um texto que achei maravilhoso (83 Conselhos de Gurdjieff a sua Filha) e que me ajudou a listar algumas prioridades. Escolhi 10, coloquei na minha ordem de importância, mas mantive os números em que elas aparecem na lista original.
1. Fixa tua atenção em ti mesma, sê consciente em cada instante do que pensas, sentes, desejas e fazes.
64. Não prestes contas a ninguém, sê teu próprio juiz.
9. Para de te autodefinir.
2. Termina sempre o que começaste.
21. Come e dorme o estritamente necessário.
28. Sê pontual.
18. Não te apropries de nada nem de ninguém.
24. Não estabeleças amizades inúteis.
62. Não te enfeites com as ideias alheias.
75. Se estás em dúvida entre fazer ou não fazer algo, arrisca-te e faz.
Para o ano de 2016, encerro com o octogésimo terceiro conselho do mesmo texto citado e que diz, sem concluir:
“Se estás meditando e um diabo se aproxima, bota-o a meditar também…”
Que venha o ano, seus diabos e seus presentes! E a sabedoria para lidar com ambos.

83 Conselhos de Gurdjieff a sua Filha